Artesanato

A Cestaria em vime, o Curtume  e a Tamancaria  representa o que de mais emblemático há em termos de artesanato da freguesia. A origem da artes perde-se no tempo.
 
Curtume
Nome dado ao local onde se processa o couro cru. Tem por finalidade deixá-lo utilizável para a indústria e o atacado. Os curtumes podem ser vegetais ou minerais.
 
Cestaria em vime
Vime ou verga é um material utilizado desde tempos primitivos, originalmente oriundo de varas moles e flexíveis do vimeiro e que passou a designar qualquer matéria-prima de origem vegetal com tais características e que, trançado, possui diversos usos, principalmente na manufatura de cestos e móveis.
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Tamancaria
Os Tamancos da Pocariça
Com base no testemunho e ao tempo de António Marques da Silva
Fases de Fabrico
O fabrico de um tamanco compreende três fases distintas: a confecção do pau, a preparação da encoira e o pregar.
1. Confecção do pau
A madeira utilizada nos paus podia ser de diversas qualidades: acácia, choupo, pinho, eucalipto, freixo, laranjeira ou amieiro, sendo esta última considerada a melhor por ser mais leve.
O tronco da árvore é serrado em rolos, e estes por sua vez em buchas, que têm o tamanho correspondente aos números dos tamancos a que vão dar origem.
Noutros tempos este trabalho era feito com rolo em cima de uma burra e um homem de cada lado manejando o traçador. Havia uma medida, constituída por um bocado de fita métrica pregada num pau – com o tamanho do tamanco maior –, que se aplicava em cima do rolo para se marcar os pontos onde se devia serrar.
Quanto à medida, deixou de a usar, pois a muita prática permitia fazer os tamancos “a olho” e depois… “senão dá para o 35, dá para o 36 ou 34”, e assim por diante.
Igualmente simplificado está o trabalho de abrir as buchas, que antigamente também implicava dois homens: um segurava o machado em cima da bucha e o outro batia com o maço. Hoje, em vez do machado, coloca-se a cunha batendo com a marreta. A bucha é assim aberta longitudinalmente em duas ou mais secções, consoante a sua grossura.
Segue-se o trabalho de cavacar, isto é, afeiçoar a madeira com uma enxó de modo a dar-lhe o feitio do pau, utilizando para isso o molde. Se a madeira estiver muito seca, é posta de molho antes de se iniciar o trabalho. O salto é talhado com o serrote, e depois acabado com a enxó.
Cavacando com a enxó, obtém-se assim um pau com um aspecto ainda um pouco tosco, que seguidamente é limpo com o formão, com o qual se faz igualmente o friso ou a encarna em toda a volta.
Finalmente o pau é lixado.
2. Preparação da Encoira
Com a pele do avesso em cima de uma mesa, e utilizando o molde de encoira (parte de cima do tamanco, em pele branco ou envernizada) do feitio e tamanho pretendido, vai-se riscando com um lápis até completar uma ida. Se o molde não dá até ao fim, muda-se para um molde mais pequeno, de modo a aproveitar-se completamente a pele. A ida seguinte é desencontrada, isto é, desenha-se com o molde colocado ao contrário.
Dantes este trabalho era feito com os vários moldes correspondentes aos diversos feitios e tamanhos de tamancos. Ao Sr. António, com a prática de tantos anos, bastava-lhe um molde de cada feitio: com ele talhava não só o tamanho relativo a esse molde, mas os números acima, dando um bocado mais a “olho”, e os números a baixo roubando um bocadinho. À medida que se vai riscando, vai-se escrevendo logo na pele os números. No fim de desenhada uma ida, corta-se com a faca, que tem de estar muito afiada.
As encoiras assim cortadas são depois debruadas na parte que forma a boca do tamanco, à máquina, sendo este o único trabalho que nunca era feito pelo Sr. António: ou era a mulher, quando consegue algum tempo disponível, ou era uma prima que lá vai a casa recebendo um tanto por cada par debruado.
Nas encoiras gravadas, próprias de certos modelos de tamancos, os desenhos, ao sabor da inspiração do momento, são feitos com o riscador e o vazador, e isto tanto pode acontecer nesta fase como já depois daquelas estarem pregadas.
3. Pregar
Consoante os tipos de tamancos e também de acordo com as preferências de quem encomenda, os paus podem ou não ser forrados: quer com flanela, até meio do pé, deixando descoberta a metade posterior – a essa peça chama-se forro – quer com oleado, cobrindo apenas a parte correspondente ao calcanhar – e nesse caso chama-se palmilha. Tanto o forro como a palmilha são fixados ao friso por meio de pregos.
Entretanto as encoiras são mergulhadas em água quente, para se darem, isto é, para vergarem, acompanhando o feitio da forma.
Seguidamente inicia-se o trabalho de alinhavar. A encoira amolecida é pregada ao pau, por sobre o friso, mesmo a meio da biqueira, depois levanta-se a encoira e prende-se ao pau, com um prego comprido, a forma de pregar, que tem sempre o número correspondente ao número do tamanco que se está a fabricar.
Essa forma, que nunca chega até atrás ao calcanhar, era geralmente aplicada de maneira diferente: pregava-se o prego comprido no pau ou imediatamente atrás da forma, o que a impedia de escorregar. Foi o Sr. António quem introduziu esta alteração, praticando um furo em todas as suas formas para as poder pregar daquele modo.
A marca que, de uma forma ou de outra, o prego necessariamente deixa no pau é depois disfarçada com umas batidas de martelo.
A encoira é então ajeitada por cima da forma e, ao mesmo tempo que se vai puxando com a turquês, vai-se pregando, primeiro uma ponta, depois a outra, de modo a fixá-la ao pau ao longo do friso.
Seguidamente, e sempre com a ajuda da turquês, prende-se a encoira em toda a extensão dos bordos, com pregos em intervalos mais ou menos regulares de cerca de um centímetro.
Como regra, antes de se pregar cada prego deveria ser feito o respectivo furo na pele com a sovela (instrumento constituído por um pequeno cabo de madeira, munido de um espigão em ferro, aguçado na ponta). Mas, para ser mais rápido, e porque tinha muita prática, o Sr. António pregava “a dedo”.
Finda esta operação, apara-se com a faca bem afiada um ou outro bocado de pele que tenha ficado abaixo do friso, e vai-se alinhavar outro tamanco.
A fase seguinte, denominada acabar, não só torna o tamanco mais bonito mas dá-lhe uma maior resistência. Consiste em aplicar, por cima da borda da encoira alinhavada, uma tira de oleado, chamada circo, e que é presa com tachas, igualmente a intervalos regulares com cerca de um centímetro.
Só depois de estar acabado o tamanco é que se lhe retira a forma.
Nalguns modelos de tamancos aplicam-se ainda umas biqueiras, umas vezes de metal, outras de pele – os chamados focinhos de cabedal. Estes são feitos pelo Sr. António que corta um bocado de pele com um formato mais ou menos oval, dividindo depois ao meio com uma rilhadeira (peça dentada em ferro que serve para cortar a pele ao mesmo tempo que deixa nela o recorte dos dentes) e um martelo. A rilhadeira deixa num dos bordos das biqueiras o seu recorte denteado, que é o que fica virado para a parte de cima do tamanco. O outro bordo é pregado com tachas por cima do circo, o mesmo acontecendo com as biqueiras de metal, que já têm uns orifícios próprios para se pregarem.
Acabados os tamancos, furam-se as encoiras do lado de dentro de cada pé com a sovela e atam-se aos pares, ficando estes uns dias a secar, pendurados pelos saltos.
Num tamanco velho, com o pau já gasto, ainda se pode fazer um pregamento, que consiste em pregar as respectivas encoiras em paus novos.
Tipos de Tamancos
Tamancos masculinos
O Rabelo é o tamanco que tem mais cabedal: a encoira cobre todo o peito do pé, tendo também bastante altura dos lados e atrás. A pele é usualmente branca, geralmente couro seleiro. O pau é largo, arredondado à frente e o salto é direito.
O Poveiro tem menos cabedal: tem menos frente e os lados são mais baixos; tanto se faz em branco como em preto (verniz). O pau é idêntico ao do rabelo.
Em Cantanhede, além do poveiro também se usava um outro tamanco, que era mesmo característico da região, e ao qual não dão nenhum nome especial: era feito em couro atanado branco, e o pau era muito bicudo. À frente levava umas biqueiras de metal ou de pele, sendo a encoira riscada (com riscador de bucho), ou feita com a pele do avesso.
Além destes três tipos, o Sr. António também fez muito por encomenda o chamado Tamanco de Orelhas: as encoiras eram altas e, atrás, as orelhas sobrepunham-se, sendo depois presas com um ponto.
A Chanca é uma espécie de bota de cano curto, muito vendida no Inverno. A pele é igualmente talhada, nas suas diversas partes – gáspea (peito da chanca), cano e calcanhar – com o auxílio de moldes, e depois cosido à máquina; finalmente é pregado aos paus, com o auxílio de uma forma própria, com a parte de cima amovível (cunha), para facilitar a saída após a chanca estar pronta. O pau é mais baixo do que o do tamanco vulgar, tendo por baixo, junto ao salto, um feitio a que chamam espinha. Na biqueira era aplicado um focinho de cabedal ou chapa de metal.
Tamancos Femininos
A Soca caracteriza-se por uma encoira curtinha, em verniz, que acaba um pouco antes do salto, geralmente riscada ou estampada. O circo só cobre a encoira, não vai a toda a volta. O pau é largo, com a parte da frente arredondada e o salto é direito. A encarna (friso) vem só até meio do pau, mais ou menos onde pára a encoira.
A Varina, também em verniz mas liso, tem a encoira até ao começo do salto e uma palmilha, em oleado, a cobrir o calcanhar. O circo é aplicado a toda a volta. O pau é mais estreito do que da soca e mais afilado, tendo um salto mais torneado.
O Papo-seco, com um pau idêntico ao da varina, é um tamanco fechado com a encoira até atras. Tem forro de flanela e palmilha vazada e, por debaixo desta, papel de lustro colorido. O pau é normalmente pintado de preto.
O Poveiro é semelhante ao poveiro de homem, mas mais pequeno e sempre feito em verniz.